As Torres e os Galhos

As Torres e os Galhos: uma adaptação fotográfica do romance “A Cidade e as Serras”.

De verdade, não o é.

São antes clérigas as torres e invictos os galhos que de Eça só mesmo o realismo das cidades que não os têm. Salva-se o Porto que nada tem de Gálata, e Cambridge que de clérigo tem tudo.

Três cidades, em nada parecidas num todo semelhante: têm torres e têm galhos – e um parvo maníaco em pôr galhos sem bugalhos e torres com galhos. Aparenta ser complicado, mas não há nada tão simples. Mala às costas, câmara em punho e pernas para andar.

Chega-se a Istambul – já sem pernas – e a norte do Corno de Ouro, a dominar o horizonte de Gálata, ergue-se a Grande Torre, que já foi de Cristo para os genoveses. Tem uma altura de 66,9 metros, conta com nove andares e dela já se conseguiu voar. Com asas artificiais ou até mesmo com um foguete cónico anafado de pólvora, os irmãos Çelebi tornam-se pioneiros em meados do século XVII.

Com claras funções de defesa desde a sua construção, a torre, originalmente bizantina, encerra o skyline da eterna Constantinopla.

Com pena ou por falta de vontade, não cheguei a visitá-la. Resta um registo captado do lado de cá do Bósforo, nos jardins “tuliposos” do Palácio de Topkapı, onde, curiosamente, predominam os galhos a rasgar um final de tarde chuvoso.

Istanbul, Turquia (220)

Torre de Gálata ou Christea Turris ou Megalos Pyrgos, Istambul, Turquia

Com menos três andares e mais 8,1 metros que a de Gálata, a Torre dos Clérigos ergue-se embasada numa escada em espiral que conta 240 degraus. Sineira, a torre é um ex libris do barroco, enquanto arte, de Nasoni, seu arquitecto e, impreterivelmente, da invicta cidade do Porto. Se a visitei? Nunca. Interceptei-a antes na retaguarda arvorejada do terreiro da Sé – expedito, que o comboio partia em cinco minutos rumo ao “berço”.

Canon - Primeiras Fotos (39)

Torre dos Clérigos, Porto, Portugal

É de punting que me faço chegar ao St John’s College, bem no centro de Cambridge. E, é no punting que me fazem chegar as lendas envolta de uma torre de relógio – no entanto, relógio nem vê-lo. Se uns afirmam que uma lei limitava o número de relógios carrilhão em Cambridge, rendendo a adição de mais um, mesmo que não sejam conhecidas evidências da existência dessa mesma limitação; outras explicações, improváveis ou não, incluem o medo da instalação de um mostrador de relógio estragar a simetria do edifício somado à situação financeira da faculdade, no início do século XIX, que tornou impossível a conclusão da obra. Porém, a mais interessante das interpretações viria a ser mais tarde explicada: presume-se que o St John’s College e o seu vizinho, o Trinity College, estariam envolvidos numa corrida para a construção da mais alta torre de relógio existente até então na cidade; supostamente, o primeiro a terminar, construindo, necessariamente, a torre mais alta, albergaria o relógio carrilhão; a Torre do Trinity foi terminada primeiro (ou, numa outra versão da mesma história, foi feita mais alta, durante a noite, pela adição de uma cúpula de madeira) e, assim, o relógio foi deixado lá permanecer. A prova, mais que provada, de que o mundo foi feito para os espertos e não para os que, inteligentemente, visitam torres e menosprezam os galhos.

St John's College, Cambridge, Reino Unido

St John’s College, Cambridge, Reino Unido

Escusado será dizer que não a visitei!

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