A preto e a cores

Com 3 ele brinca, 3 ele perde e com 3 ele fica. Somam-se 9 as vidas de um gato.

Com 3 permite brincar, 3 deixa perder e sem 3 ela fica. Somam-se 9 e subtraem-se outras tantas. São vidas a preto de mulheres a cores.

Istanbul, Turquia (222)

Mulheres a “piquenicar” nos jardins do Palácio de Topkapı, em Istambul, Turquia

Por estas bandas, Deus faz-se lembrar cinco vezes ao dia. O Islamismo vigora. A pressão é um pouco perturbadora.

Acordo sobressaltado. São cinco da manhã e, pela primeira vez, a “voz” não se ouve. A mesquita está longe.

É sábado. É um sábado diferente de um Março desigual, ora sol, ora chuva, consoante a debandada. É um sábado em Adana – desta feita chuvosa -, a sul da Turquia, com cheiro a Mediterrâneo. Havia ficado albergado numa casa de campo, a uns bons quilómetros da metrópole. Uma casa de mulheres.

A matriarca da família madrugara nesse dia. Encontro-a de pernas “à chinês”, numa cozinha anexa ao primeiro andar da casa. Ali ao lado e ao mesmo tempo tão longe, como que um reino em que os homens não entram. Vi-a só “de fisga”, confesso, dentre as frestas da porta. Estava a fazer pão, o típico gozleme, não houvesse uma família para alimentar.

Do lado oposto à cozinha, a casa-de-banho, o meu alvo. Havia um senão: deslocar-me implicaria ceder a território calçado. O meu medo era ser visto. Venço-me pelo cansaço e a preguiça em calçar-me vence-me e vou “sem calço”. Quando volto, lá estava ela, peito feito, calças longas, ao jeito camponês, mangas compridas, à boa maneira turca, e um cabelo submisso ao véu. A cara era como poucos, poucos amigos. De repente, esbraceja, estrebucha e esperneia, tudo em turco e eu sem nada perceber – como quem diz, tudo. Fez-me sentir culpado do maior crime do mundo e eu só tinha ido descalço à casa-de-banho.

Envergonhado aninhei-me “à mesa” que, forçosamente, não passava do chão por ser ele próprio. Tinham chegado todos para o pequeno-almoço.

De pele suja, um maltrapilho bigodado é chamado de pai. Sentado num dos cantos da sala, com os pés debaixo da toalha, despreza o prezo que a família lhe tem. A lição tinha sido bem ensinada. Olhar caído, um tanto embatucado, faz-se sentir presente sempre que a linha de montagem quebra o ritmo. Do fogão, ainda a lenha, saem os gozleme da matriarca. Recebidos pela neta – até então subordinada à obediência dos 18, que os exames para a Universidade estavam por fazer –  são amanteigados. A mais nova já estava de queijo na mão pronta a recheá-los, enrolá-los e servi-los. A mãe delas, filha da outra, fazia as honras da casa. Com um sorriso desdentado e um franzir “monocelhado”, insurgia-se para que fosse picando com o garfo tudo o que orgulhosamente havia sido feito. A neta mais velha, filha primeira, essa, comia tal como eu – os três anos académicos conferiam-lhe um estatuto que o campo rejeitou a todos os outros. Contas feitas, 4 filhos, netos da outra, os dois mais novos de uma paridela só.

Remanso segue o repasto. Comunicar só mesmo por gestos falados. O turco não se entende comigo e eu tão pouco me entendo com ele, é recíproco. O çay (chá) termina. O do meu copo, porque o demais não deixa de ser feito. Vejo o ritmo a quebrar e o embatucado a fazer-se sentir presente. Tinha havido uma baixa. A mais nova, mirrada pelo trabalho doméstico, cede às ordens do irmão, companheiro de barriga. Obsequente, enche-me o copo. A manufactura retoma ao ritmo que lhe estava impregnado e ela segue cabisbaixo como se tivesse falhado. Estava longe de ser a cores, e ela sabia disso. Restava esperar, crescer e obedecer.

É dado por terminado o almoço que se quer pequeno. O pai já tinha saído da sala. A horta esperava-o. As mulheres ficam para o trabalho que é delas.

Fortes e decididas, não temiam a loiça que havia para ser lavada. A do meio ia levantando os copos, notoriamente mais feliz que a mais nova que ficou encarregue das sobras. Nasceu com a infelicidade de não ter sido a primeira. Foi por pouco. Abla (a mais velha das irmãs), já não poderia ser. Viveu a preto até ter substituta. Hoje, vive na ânsia de ir para longe. A Universidade serve de escape. Passará a ter cor e a estar mais próxima do sonho que demove as mulheres turcas: casar. Terá marido, bigodado ou não – sujo, de certeza. E viverá na certeza incerta de filhos ter. Indubitavelmente não entrará em contra-ciclo.

A mais velha, feminista por natureza, aprontava-se para o passeio. Maquilhagem bem marcada, ambicionava a Europa num Erasmus próximo. Longe das vistas de Adana, arriscava no decote e ariscava sempre que mostrava as pernas. Com o pai “à coca” o véu seguia na mala e uma visita à mesquita tornava-se inevitável.

A matriarca vem ter connosco. A viuvez permitia-lhe mostrar um pouco do cabelo grisalho. Por respeito, tínhamo-la beijado na mão, enrugada pelo tempo. Havia-me perdoado. Mal sabia ela, que cinco minutos atrás havia cedido uma vez mais “sem calço” a território calçado.

Desço as escadas, olho para as quatro mulheres que ficam. Avó, filha e as duas mais novas. Mulheres que não conhecem outras vidas a não ser aquela. Poderiam viver 9, mas teimam deixar a preto aquelas que poderiam viver a cores.

Istanbul, Turquia (236)

Passeio junto ao Bósforo, Istambul, Turquia

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2 thoughts on “A preto e a cores

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