– VIOLÊNCIA, + ORGASMO

O amor vive no cérebro e, existem cérebros efectivamente minúsculos. Quando falo em alguns deve ler-se quase todos.

O preconceito já deixou de o ser para resumir-se a facto mitificado por aqueles que o renegam – pelo menos verbalmente. Enquanto sentimento diz ser-se complexo e abstracto – isto é, altamente baixo, assombrosamente execrável e habilidosamente mesquinho. Actualmente, a cultura suavizou-o, mas ele ainda cá está – não fosse a violência social nitroglicerina de um mundo que se afirma em expansão.

Aquando da minha ida para a Turquia muitas foram as vozes que se fizeram ouvir. Nunca me chamaram maluco tantas vezes. Estava bem mais habituado a ser um tolo barbudo – parece que não mas subi de grau. Em boa verdade vos digo, a religião torna as pessoas necessariamente mais burras e, como sempre fui crente, na medida em que a minha religião passava por acreditar nas pessoas – ou seja, mais burro não poderia haver – fazia orelhas moucas. Lá fui.

Por cá, enquanto uns inviabilizavam o regresso por uma morte iminente, outros temiam uma conversão ignorante à supremacia islâmica (sublinho, pensavam eles). Por lá, desconsideravam um catolicismo disfarçado, abriam-me as portas das casas, partilhavam pão, que nunca me fizeram parecer escasso, e o chá, para não deixar o pão escassear. Do pouco sempre se fez muito. De terra muitos caminhos e de sorrisos muitos serões. Neles desmoronavam-se dogmas à medida que se batiam cartas na mesa. Raros eram os momentos em que falávamos daquilo que nos igualava. Preferíamos o que nos tornava diferentes. Meia volta, um golo de chá e o jogo prosseguia sem atritos – a batota livrava-nos deles. Não havia espaço para entender os porquês, porque era de facto difícil entendê-los.

Lembro-me de um desses serões.

Sexta-feira. Uma qualquer. Havia sido convidado a passar a noite na casa de uns amigos que ainda estavam por conhecer. A curiosidade pela cultura portuguesa, ou pelo menos aquilo que se dizia dela, firmou o mote para o convite. A anfitriã era minha conhecida – não fosse ela feita por mim. Sangria, por ela própria. Tão própria como a encomenda ser igual ao cabaz. Vinho turco, frutas turcas, mãos portuguesas, sangria portuguesa – melhor, quase portuguesa. Desvirtuei ainda mais a receita. Saquei de um resto do vodka russa – comprada a preço de ouro num daqueles casinos em que se come fruta e se descasca a carteira – e siga a marinha, que um cheirinho não lhe ia fazer mal.

A noite segue animada. O idioma tinha deixado de ser um problema. Fazia-os entender-me consoante os copos ficassem vazios a voltar a enchê-los. Na televisão ia passando música folclórica turca e já ninguém a ouvia. Deixara de haver espaço para religiões e com isso tinha-me esquecido que eles não podiam beber, mas eles não. Sentiam-se infundidos pela inimizade e rancor, afastados da recordação de Deus e da oração alcorânica que tanto prezam, e não se importavam com isso. Sentiam-se mais próximos do preconceito que eu tinha por eles e eu mais perto daquele que eles tinham por mim, e não se importavam com isso. A vodka tinha feito a diferença!

Nessa noite não se abstiveram do álcool. Abstiveram-se de estigmas e julgamentos, e eu também. Julgamentos que nem sempre se baseiam em experiências, antes, porém, são enviesados por valores pessoais que não correspondem necessariamente à realidade.

Facilmente afirmamos que ruas mais limpas, iluminadas e cheias de transeuntes tendem a ser mais tranquilas e seguras, assim como uma pessoa bem vestida ser boa pessoa. De facto eu pensava assim, de uma forma incrivelmente estúpida. E, injustificadamente, lá vivia – ou tentava viver – a minha portuguesinha vida de sempre, à luz de um clima constante de medo e desconfiança, num bairro turco desordenado em ruas feitas de lixo, sem luz eléctrica, cheias de transeuntes mal vestidos. Num bairro sinónimo de um país que, em três meses, distante de temores infundados, doutrinas arbitrárias ou dogmas religiosos ou políticos, se mostrou tranquilo, seguro e de gente genuinamente hospitaleira. Gente que frequentemente é alvo de discriminação e que curiosamente, ou não, incompreensivelmente, ou sim, desenvolve preconceitos no mesmo sentido de quem lhe aponta o dedo.

Karaman, Turquia (517)

As ruas de Karaman, Turquia

Karaman, Turquia (474)

O “meu” bairro turco, Karaman

Preconceituosos ou não, o certo é que as nossas escolhas acabam sempre influenciadas. Assim, o que à partida poderia ser vantajoso torna-se um problema de todo o tamanho quando as nossas decisões prejudicam os outros sem razão aparente. Felizmente, mesmo os cérebros efectivamente minúsculos são capazes de vetar opiniões, relegar decisões e até rejeitar acções. Requer empenho e tempo, é verdade. Mas vale a pena. É a diferença entre ter pré-conceitos – o que todos temos -, e deixar que eles se transformem em acções preconceituosas (Suzana Herculano-Houzel, 2012).

Silifke, Taşucu & Atakent, Turquia (125)

Um casal de Silifke, Turquia

E, como seremos sempre resultado das nossas escolhas: menos violência e mais orgasmo, por favor.

O mundo seria necessariamente melhor.

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