Umbigo Molhado II

Em dia de viagem, não se sente cansaço. Não fossem as 10 horas de sono, o Domingo de festa tinha arruinado uma Segunda que se queria de praia.

O destino tinha-o traçado ela. Eu, ia traçando aquilo que me convinha. Chocolates para o caminho, bolachas para a chegada e fruta para o lanche, com a certeza que acabaria a comer um hambúrguer no bar.

O caminho fez-se para lá do Milreu, com as conheiras à espreita. Dos tempos áureos doutrora, em que a exploração do ouro se prestava em aluvião, restam elas como vestígios, que à coca, nos vão dizendo que estamos no rumo certo. Uns metros adiante, a descida adivinha-se longa.

Parámos no primeiro de dois miradouros que havíamos ouvido falar, o das Fragas do Rabadão. O nosso olhar, sem querer, galga-se de monte para monte até à albufeira de Castelo de Bode, trilhando uma via-sacra que vai de São Sebastião a São Gabriel.

Vista panorâmica do Miradouro do Penedo Furado

Vista panorâmica do Miradouro do Penedo Furado

Seguimos monte abaixo, ainda de carro, porque quem faz a sua viagem sabe para onde vai. Chegámos ao segundo. Espraiado num rochedo que se quis gigantesco, com uma abertura enorme de feitio afunilado, que mais tarde veio dar o nome à praia, o Miradouro do Penedo Furado oferece uma paisagem serrana talhada às margens da Ribeira do Codes. Aí, pela direita, existe um trilho que permite aceder à zona baixa do penedo e descer até à praia fluvial. Quem o fizer, sábio é e mais sábio ficará. Não foi o nosso caso. Fomos de carro, mais uma vez. Tolos, mais tolos ficámos.

Perdemos a “Bicha Pintada” – e eu dado por contente – um icnofóssil, abaixo do miradouro, inserido no topo de uma camada de quartzito cinzento-escuro, com 30 centímetros de espessura, que segundo alguns estudiosos, se crê ter mais de 480 milhões de anos.

Na praia, a perspectiva muda, mas a sensação continua inalterável, a de que estamos num pequeno paraíso. As sombras dos pinhais convidam ao ócio. Ela, tacanha, fez-me frente e levou-me as toalhas até onde o sol fazia queimar. Queria uma cor, e não tardou em tê-la. A terra, muita por sinal, de mãos dadas ao vento, deu frutos – uma matiz impossível de espelhar tão bem um contacto que se ansiava puro com a natureza. A desculpa foi perfeita. Mergulho com ela e chapinhanços comigo. A pouca profundidade ao longo de toda a área reservada para banhos fez de mim um homem feliz, e as crianças também.

Saídos da água e enrolados na toalha, lá comemos a fruta de categoria primeira –  não fosse ela do Casal – e, como viagem de boca não faz despesa, acabámos no bar a comer o hambúrguer – o dinheiro mais mal empregue da minha vida, ou melhor, da dela.

Cheios de comida, decidimos deixar-nos perder num dos trilhos ao longo da ribeira. O caminho tem de tão estreito quanto de incrível. O arvoredo, ao deixar-se rasgar por escassos raios de luz, confere uma boa dose de mistério ao percurso. Os infindáveis recantos imortalizando-se em quedas de água naturais de uma pequenez tamanha. E nós ali, afeiçoados à harmonia do espaço, reduzimos o tempo à sua insignificância.

Trilhos

Trilhos

Praia Fluvial do Penedo Furado (29)

Quedas de Água, Penedo Furado

Quedas de Água, Penedo Furado

Voltámos de peito cheio e alma arroubada. Já na praia, vazia por sinal, mergulhámos por uma última vez naquelas águas. Num leito que viu correr mitos, contos e lendas criadas à mercê de um povo imaginativo que fez da natureza do Penedo Furado um lugar com história.

Entretanto era já fim do dia e o destino era o local que se viu ser partida. Mas, instintivamente, transmutámos a rota, longe de imaginar o quão longe era a próxima praia. Curvas e contracurvas, de tal modo que começámos a viver aquela viagem com a certeza que alimentar um vício custa mais que criar um filho.

Descemos até uma tal terra de nome Macieira e a estrada ia-se acanhando à medida que avançávamos. As casas, velhas do tempo, apertavam-nos o carro cada vez mais e eis que ficámos parados à espera de uma solução. Aparece-nos um homem, com tanto tempo quanto aquelas casas. De garrafa de vinho na mão, torna-se luz no nosso caminho. Aponta-nos o pôr-do-sol. Uns metros de terra batida à frente, a praia. Permanecemos lá um instantes. Eu, tentava captar cada momento que me era oferecido. Ela, dentro do carro, captava o medo de um local tão ermo e, ao mesmo tempo, tão singular.

Praia Fluvial da Macieira, Vila de Rei

Praia Fluvial da Macieira, Vila de Rei

Estávamos finalmente de volta, convictos de que ninguém viaja por viajar, mas por ter viajado.

Porque o bom da viagem é chegar a casa… e ter umas filhós quentinhas à nossa espera.

Praia Fluvial do Penedo Furado

Como chegar:

1

  • Sair de Vila de Rei em direcção ao Sardoal pela estrada municipal; a 5 quilómetros de Vila de Rei encontra um cruzamento com indicação para o Penedo Furado.
  • GPS: 39º 37′ 33.30” N 08º 09′ 42.78” W
Anúncios

One thought on “Umbigo Molhado II

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s