Umbigo Molhado III

Dizem que o Verão colhe e o Inverno come – nada tão autêntico.

A chuva que ia caindo lá fora anunciava um invernoso abocanhanço à debandada veranil que se previa para aquele dia. Ela tinha-se já levantado, talvez na esperança de me ver de pé. Eu continuava deitado na esperança que ela viesse ao pé de mim. No fundo, sintomáticos à abstinência fluvial que se havia abatido.

A manhã passa. O sol roxo, tarde veio e cedo ameaçava ir, não fosse verdade a chuva afagada continuar à espreita. De quando em quando, miúda, fazia-se parecer água de tolos e a nós, tolos de água, pareceu-nos bem correr atrás dela.

Fomos até Mosteiro. Uma aldeia arraigada num vale que se afundou para os lados de Pedrógão Grande. Nela, mora a pequenez em tamanho e a grandeza em espírito. As casas fizeram-se de xisto e as gentes de simplicidade.

Mosteiro espigou na margem direita da Ribeira de Pera, enlaçando a pequena igreja que se fez caiada de branco. Nos terrenos férteis que correm a par do leito da ribeira semeia-se uma portugalidade que muitos dão por vencida. Ainda assim, ali perduram as raízes de um povo, de identidade marcadamente rural, alimentada a broa e regada a vinho.

A aldeia regala-se da vida que tem. Moinhos, levadas, lagares e regadios irrompem o remanso empastado às sombras frescas dos carvalhos, salgueiros e amieiros, altos do tempo e densos das memórias. A praia essa, arrumada ao centro da povoação, é a alma de quem não a tem… e eu e ela a gozar do privilégio de tê-la só para nós.

Passámos a ponte que une uma margem à outra, ligando o passado histórico a um património cultural que se fez presente. O rasto da indústria de moagem ganha força com os moinhos de rodízio que se alongam, de 500 em 500 metros, ao longo da ribeira. O lagar de azeite, totalmente recuperado, respeita a fachada doutros tempos à medida que nos acalenta o bucho com os sabores de sempre. É, nos tempos de hoje, restaurante e bar, “Fugas” de nome, e serviu de escape à toalha e à chuva, que apesar de pouca foi suficiente para que, à falta de gelados, lambiscasse uma tosta a meias.

Praia Fluvial do Mosteiro, Pedrogão Grande

Praia Fluvial de Mosteiro, Pedrógão Grande

Escape no bar, mergulho à espera.

A praia tem uma zona extensa de água que se finda numa pequena cascata com riacho. E eu ia-me finando. A água é fria, mas mais frio fica com quem ela conviva. Para que não bastasse, frio no rosto nas pedras poderia vir a ferir, porque se pedra que rola não cria lodo, aquela criou.

O tempo passou-se a passar o tempo. Feliz, por ter sido com ela. Era tempo agora de rumar à última praia do dia, na certeza de que o tempo que ali perdemos, não se torna mais a achar.

Albufeira da Barragem do Cabril

Albufeira da Barragem do Cabril

Arraia entre o concelho da Sertã e o de Pedrogão Grande, como que uma linha ténue que desprende os distritos de Leiria e Castelo Branco, a albufeira da Barragem do Cabril brindou-nos com um pôr-do-sol aos nossos pés. O Zêzere serviu de espelho e os olhos dela de espanto. O dia de chuva tinha valido a pena.

Praia Fluvial do Cabril (14)Praia Fluvial do Cabril (5)

No fim, no restaurante ali ao pé, entre maranhos e pudim de pão, optámos por um simples café, na certeza de que nunca mais deixaremos caminhos por atalhos.

Como chegar:

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Praia Fluvial de Mosteiro

  •  Sair de Pedrógão Grande pela variante que liga à EN2 (direcção Pampilhosa da Serra). Virar à esquerda para Troviscais Fundeiros. Passar por Fontainhas, Troviscais Fundeiros e mais à frente a aldeia de Mosteiro. Também pode optar por sair de Pedrógão Grande pelo IC8, direcção Coimbra, e sair à direita 4 km mais à frente na placa que indica a aldeia e a praia de Mosteiro.
  • GPS: 39º 56′ 9.20” N 8º 11′ 10.5” W

Albufeira da Barragem do Cabril

  • Sair de Pedrógão Grande, pela rotunda/largo Afonso III e seguir as indicações para a barragem do Cabril, pela Rua Manuel Nunes David. Mais à frente, seguir as indicações do restaurante Lago Verde e Clube Náutico de Pedrógrão Grande.
  • GPS: 39º 55′ 21.51” N 08º 08′ 00.80” W
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