Umbigo Molhado IV

Oleiros tem nome de quem nunca teve. E figura de cidade sem deixar de ser vila. Acima-se num vale que se alarga junto à ribeira afluente do Zêzere. O casario pinta-se de branco e pontilha-se de xisto. Os campos cultivam-se à margem da sombra dos pinhais. Estes, trilhando a norte as serras da Rasca e Alvelos, espicaçam um estio perigoso e um inverno chuvoso. A sul, as gentes, genuinamente hospitaleiras, deixam-se perder para lá da Lontreira e Cabeço da Rainha. As de cá, genuinamente generosas, brindam outras tantas com um cabrito estonado à moda de quem o faz.

Gente generosa e gente afoita, e a gente assim é fácil a virtude. Desse jeito, fez-se António de Andrade. Filho da terra, este padre jesuíta de espírito decidido levou o nome de Oleiros numa cruzada além fronteiras. Fez-se o primeiro europeu a chegar ao Tibete e, por não ser milagre, vai-se dizendo o nome do santo. Nada obstante, o passado da vila é mais longo do que o caminho que fizemos para alcançá-la. Recordá-lo é revolver as cinzas de dias passados e fogueiras mortas e, claramente, não estávamos lá para isso.

Por estas bandas, esta é terceira debandada desde uma primeira em Maio. A praia é a de sempre, refugiada do burburinho silencioso da vila. Deram-lhe o nome de Açude Pinto e ela deu-lhe o privilégio de ser uma das suas preferidas. E eu percebo porquê. É praia de rigores, de manhãs de sol e tardes de chuva. O temperamento, tal qual o dela, é tempestivo, refrescante pelas sombras e abrasador às claras. Com isto, resta-me ficar pela toalha, a jogar 94, à espera que o inesperado nos possa levar até ao bar.

Praia Fluvial Açude Pinto, Oleiros

Praia Fluvial Açude Pinto, Oleiros

Açude Pinto é uma praia em duas. Do lado de cá, fizeram-na profunda, para os como ela. Do lado de lá, engenhou-se para os mais novos, como eu. As margens limitaram-nas por paredes e os corrimões, que quiseram muitos, permitem o acesso à água, ora cá ora lá.

Nós ficámos por lá, muito por minha causa, confesso – é uma maneira de perceber se ela faz alguma coisa por mim. E fez. Dormiu muito e não me chateou. Assim, não tardou aquela tarde. Hábito nosso, acabámos na esplanada, a espreguiçar o bucho com uns petiscos, bons para quem deles gostar.

O que passou, passou. E, porque águas paradas não movem moinhos, era dia de levar o umbigo até à Fróia.

Praia Fluvial da Fróia, Proença-a-Nova

Praia Fluvial da Fróia, Proença-a-Nova

Encaixada num vale, na nascente da ribeira que lhe dá o nome, a praia fluvial da Fróia não teve mão na vida de outros tempos. A pouca água crê ser ligeira e nem assim estuga a roda do moinho que hoje serve apenas para ser visto. Os solários preservaram-se extensos e as pequenas cascatas mirraram ainda mais. De um lado ao outro, ela ia arcando a ombros as toalhas no esquecimento de as estender. Eu caminhava tal qual aquela praia, num jeito desajeitado longe de ser esquecido.

Praia Fluvial da Fróia (20)

Praia Fluvial da Fróia (21)

Dessarte, obrigamo-nos à ideia de andar a pé no circuito pedestre circular ao longo da ribeira. Dos recantos a vários passos alteam-se Oliveiras e Pedreira, aldeias de xisto a outros dois. Da Sobreira ali perto, sabe-se formosa e terra do pintor Ribeiro Farinha, conterrâneo de um carniceiro que ela diz ser dentista. Com pernada frouxa, por entre as terras que a viram crescer, contava-me cada vez mais histórias da história dela. Entre uma e outra, por ali namoriscámos, num miradouro qualquer, alheados a uma Fróia que não quis o umbigo molhado.

Praia Fluvial Poço Corga, Castanheira de Pera

Praia Fluvial Poço Corga, Castanheira de Pêra

Mais uma ficha, mais uma voltinha.

Nos planaltos da vertente sul da serra da Lousã, próximo de Pêra, a praia fluvial de Poço Corga afunda-se dentre as vidas pacatas que por lá vão resistindo. Os carvalhos, mais velhos que o tempo, mesclam-se com o verde dos castanheiros. Bucólicos, os salgueiros tentam abafar os pinheiros que, a cada renovar de forças, se deixam notar. Com eles, perduram sombras de tranquilidade, próprias de quem procura um estado pleno com a natureza.

Praia Fluvial Poço Corga (23)

Ao contrário da Fróia, as águas de Poço Corga correm atinadas, disfarçando o peso das memórias rurais que carregam. Outrora moveram cantares ao azeite. Hoje, desfiam recordações a quem o lembra ser feito. O Museu do Lagar que ali figura, assim o dita: apressar um tempo que depressa vem.

Demos um único mergulho. Fizemos um único lanche. E, ao ir embora, foi bom… porque é bom deixar saudades quando o tempo desengana.

Como chegar:

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Praia Fluvial Açude Pinto

  • Para chegar à praia a partir de Oleiros, seguir pela EN328, em direcção a Castelo Branco ou pela EN351 em direcção a Isna.
  • GPS: 39º 55′ 16.46” N 07º 53′ 31.55” W

Praia Fluvial da Fróia

  • A partir de Proença-a-Nova, seguir em direcção a Castelo Branco pela EN233. Passando pela Sobreira Formosa, seguir as indicações para a Fróia à esquerda.
  • GPS: 39º 47′ 22.01” N 07º 50′ 18.70” W

Praia Fluvial de Poço Corga

  • Sair de Castanheira de Pêra pela EN236-1, em direcção Norte, para Sapateira e Vilar.
  • GPS: 40º 01′ 30.15” N 08º 11′ 25.01” W
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