Uma tasquinha chinesa, com certeza!

A sudeste de Cambridge, perto de Parker’s Piece, no cruzamento com Gonville Place, East Road e Parkside, a Mill Road é uma rua do mundo – ou melhor dizendo, o mundo numa rua. Nela cabe tudo aquilo que existe – ou quase tudo. Pelo menos tudo aquilo que se distingue. Tão diferente e tão igual, Mill Road revela-se como um poço de vida – e de vidas -, onde muda o número da porta e a humildade de quem a abre.

Originalmente uma estrada rural tranquila, a Mill Road viu o seu desenvolvimento alavancado pela chegada das linhas férreas à cidade, em meados do século XIX. Desde então, a rua – que não o era – passou a desenhar o seu próprio universo, o da diferença. A ponte, à data construída, veio segmentá-la em duas grandes áreas: Petersfield e Romsey Town. Duas faces de uma só moeda, literalmente.

A este, Romsey Town, nos anos que se seguiram a 1885, testemunhou a construção de habitações para aqueles que andavam na labuta ferroviária. Operários que fiéis a uma tradição socialista – naquilo que eram as suas políticas locais – tornaram Romsey conhecida como “Red Romsey” ou, até mesmo, “Little Russia”.

Por outro lado, a oeste, Petersfield, abrigo de grande parte dos funcionários universitários, ficou afamado, localmente, como sendo o lado “Gown” da cidade: uma nomeação histórica que deriva dela mesma. “Gown”, do latim “gunna“, é uma peça de vestuário semelhante ao vestido – tal qual o conhecemos nos dias de hoje -, usado, na Europa, desde a Idade Média até ao século XVII, por homens e mulheres. Actualmente, a indumentária utilizada pelos académicos, juízes e alguns membros do clérigo deriva, directamente, das roupas do quotidiano dos seus predecessores medievais – excepção à regra porque, costumeiramente, tempo que vai, não volta. Mill Road é a prova mais que provada – percorreu o tempo e deu muitas voltas.

Hoje, Petersfield respira mais Romsey do que Romsey socialismo. É lugar de culto à cultura e aos povos que fazem dela mais que uma. Os espaços que ergueram do pouco que tinham é símbolo da vitória sobre uma vida que nem sempre foi fácil. O convívio esse, faz-se em amena cavaqueira, imperando uma palavra de ordem, comum a todos eles: esperança. Obrigados a mudar de direcção, ambicionam terminar exactamente onde partiram. Desta feita, um pouco mais felizes. Por enquanto, preparados para o pior, esperam o melhor ao aceitar o que vier. Don Huang e Hui Yan Li são exemplos disso – do espírito que a Mill Road vive.

Num espaço tacanho, perdido na pequena imensidão de Petersfield, o casal chinês dá a provar um país a quem o desconhece e a quem o quer redescobrir – e sabe tão bem. Desta forma, o Noddles Plus+ mostra-se mais do que um negócio familiar: é um lugar que nos faz sentir em casa, mesmo estando tão longe dela.

Fui lá umas quantas vezes, sempre com ela. E, a partir da primeira, quando penso em comida de conforto, não são os guisados da mãe que me vêm à cabeça – com muita pena minha, confesso.  Os dumplings do Noddles, esses sim, encontrados por ela mesmo antes de lá ter estado, são melhores que mulher boa como prata que soa. A razão das razões está na experiência. Don Huang não é um novato no panorama culinário: trabalhou, afincadamente, nas cozinhas de hotéis de cinco estrelas em Xangai e, mais tarde, foi chef de um conceituado restaurante em Pequim. Agora, Huang fica-se por um restaurante modesto para tamanha habilidade. Chamar-lhe tasquinha é quase pecado, mas assenta-lhe a jeito no jeito que tem. Ou no jeito que eu quero que tenha: castiço, por sinal. Por lá, as conversas perdem-se no tempo e o paladar perde-se em sabor. E se alguém estiver tão cansado que não possa dar um sorriso, Hui Yan Li deixa-lhe o dela. Extremosa, carrega às costas o peso da tradição: é chef na arte de bem receber – fá-lo como nunca vi ser feito, apesar de palavras não cozinharem arroz.

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Bebida de Aloe Vera no Noodle Plus+

Crispy Batons

Crispy Batons

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Sopa de noodles com vegetais

Noddles não tem ladrilho com desenhos, nem adornos por aí além. A despeito do nome, não é um restaurante chinês convencional. É pintado de verde e moram nele vestígios das baguetes que aquele espaço serviu outrora – menos áurea. As janelas encheram-se de fotos de encher o olho. Por dentro, quatro mesas ao comprido e umas quantas cadeiras rivalizam, em área, com a cozinha, perfilada atrás de um balcão de vidro que já viu melhores dias. É despretensioso, simples e asseado. A ementa é variada, rica e deliciosa: dumplings com porco, ou sem ele; pratos especiais, crocantes ou suaves; e noodles de toda a espécie e feitio, onde o melhor molho é mesmo o apetite. O preço é em conta e da conta de quem o paga. E o mais barato é, por certo, o mais famoso: o Shanghai Xiao Long Bao, um tipo de dumpling que se faz recheado de carne e cozinhado a vapor. Servido, tradicionalmente, ao estilo Dim Sum, este dumpling deve ser comido de uma forma tal qual ele é, especial. O Shanghai Xiao Long Bao deve ser retirado, cuidadosamente, do cesto que o acompanha. De seguida, deve ser mordido e o líquido, em jeito de sopa, que envolve o recheio, deve ser bebido com cautela. Ao contrário do ferro, dumpling quente não se quer malhado de repente – é esse o meu lema. Por fim, mergulha-se em molho de soja – ou outro qualquer – e come-se o restante. A tarefa pode parecer complicada, no entanto, no Noodles as condições de segurança estão garantidas – bem mais que numa companhia aérea low-cost. Hui Yan Li vai coordenando as acções da armada que se vê nova nestas andanças. E existe salvação para quem não sabe usar o hashi, isto é, os pauzinhos – mal Hui Yan vire costas, usam-se as mãos: é um bom troque, o meu (se bem que ela, a que vai sempre comigo, tem vindo a desenvolver um bom trabalho de reabilitação).

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Shanghai Xiao Long Bao

Mas qual é a origem dos dumplings?

Dizem que foram criados por um dos maiores praticantes de Medicina Tradicional Chinesa, Zhang Zhongjing. Ele notou que, durante grande parte do Inverno, a população chinesa queixava-se  de frio – imagine-se onde? Incrivelmente, ou não, nas orelhas e, baseado neste facto, decidiu elaborar comida quente com essa forma. Já outros, menos fantasiosos, afirmam – não se sabe se a pés juntos – que os dumplings chegaram à China através da Rota da Seda.

Eu prefiro acreditar que a felicidade não tem história. Os dumplings de Huang são aqueles que me vão fazer voltar para receber o mesmo sorriso de Hui.

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Noodles Plus+

24A Mill Road, CB1 2AD Cambridge |01223 362185

Aberto todos os dias da semana das 10h da manhã às 9h30 da noite.

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Ementa do Noddles Plus+

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4 thoughts on “Uma tasquinha chinesa, com certeza!

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