Lek’s Thai Food?

Nada se faz sem tempo e Chelmsford, sobre os prados do condado de Essex, fez-se cidade há pouco. Ainda assim, a história é de quem a conta e a de Chelmsford é contada desde há muito. A sua ocupação remonta ao Neolítico e, sem barranco que os detivessem, os dias passaram ligeiros até àqueles que os romanos tornaram eternos. Foram eles que, em 60 antes de Cristo, construíram tudo aquilo que existiu e tudo aquilo que há-de existir: saudade, dissabores e receios.

A fortificação, erguida a braços com o Vale de Chelmer, concentrava uma vontade que não passou de desejo – a cidade civil que cresceu à sua volta falhou. Caesaromagus, “o lugar de mercado de César”, havia sido planeada como “capital provincial”, substituindo, em grosso modo, Londinium – um povoado fundado na actual Londres, por volta do ano 43 – ou Camulodunum – hoje, Colchester, reivindicada como a mais antiga cidade da Grã-Bretanha e primeira capital da província.

A temer ser vencida, Chelmsford nunca quis ver incerta a certeza da derrota. Com ela deixou o peso do prefixo imperial que carregava – um título demasiado encorpado aos olhos de um povo que, desde sempre, preferiu dar corpo a uma vida vivida do que viver para uma vida. Assim, com nome excluso, Chelmsford amadureceu em torno daquilo que ele significava.

As sementes viram-se relançadas à terra pelo Bispo de Londres, William de Sainte-Mère-Eglise, em 1199 – pouco depois de ascender ao cargo. Nesse ano, King John, a reinar à época, concedeu a William o direito de realizar um mercado semanal, às sextas-feiras.

Originalmente em forma de triângulo alongado, o mercado viu-se levado desde o fundo da Springfield Road até ao espaço amplo que a frontaria da Igreja de St Mary embargava. Nele, comerciantes audazes, perdiam dinheiro a vender barato.  Os compradores, por certo, voltavam uma vez mais, desta feita a calcular o preço da venda antes mesmo de deitar conta ao preço da compra – coisa de costumes a que eu me vi acostumado. 

Hoje, 800 anos depois, não muito longe do espaço que o acolheu – ainda muito para lá da Idade Média -, o mercado de Chelmsford quis-se coberto e a operar cinco dias por semana, em vez de apenas um. Mas, a sua essência não se perdeu com a mudança. É lugar de convívio entre bancas e de achados para quem os procura. Do mais básico ao mais exótico, arrematam-se as maiores pechinchas. Por lá, perco-me em busca de sardinhas que não encontro e de castanhas que se dão por encontradas. E lá, entre a porta da rua e a talha da carne, descortino uma Tailândia em ponto pequeno, num ponto tão perto.

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Mercado de Chelmsford

À primeira vista, o Lek’s Thai Food pode não parecer um restaurante. É, no entanto, muito mais que isso: uma colher que dá de comer, por muito que os olhos não comam sopas.

Dos poucos metros que lhe servem de abrigo, no Lek’s mora a primazia nos detalhes e a complexidade no sabor. Do doce ao salgado, do ácido ao amargo, os pratos da comida tailandesa enchem-se de componentes levemente aromáticos, num travo que quiseram picante. Por isso, não se trata de simplicidade. Trata-se na harmonia como resultado de uma soma improvável de elementos que, simultaneamente, põem à prova todos os sentidos, num desafio que tem tanto de arriscado como de arrebatador.

Atrás do balcão, recheado de panelas a transbordar de apetite, três cozinheiras de mão cheia traçam o perfil alimentar da cultura que as viu nascer. Com elas é possível viajar na prova de cada iguaria que confeccionam. De simpatia no rosto e de rispidez suave na voz, descobre-se pelo gosto o gosto que cada uma tem a cozinhar: pela atenção aos pormenores, à textura, à cor, ao sabor e, sobretudo, ao equilíbrio. É-lhes típico pensar assim, na refeição como um todo e, é essa forma, a de como a apresentam, como cheira e como se encaixa, o que mais nos cativa.

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Lek’s Thai Food

O meu enamoramento pelo Lek’s foi-se fazendo. Foi, por certo, uma batalha que não queria já ganha. Em cada incursão ao mercado, queria sentir que merecia a vitória, fisgando a presa por mérito próprio – e acabei fisgando um excelente robalo. Dessarte, a luta por uma refeição tailandesa fez-se como se de uma mulher se tratasse: a beleza empolgava a vista, mas foi o engenho que me conquistou a alma. E bastou uma única vez para ficar absolutamente rendido.

Confesso que foi fácil perder-me na ementa. A tradição culinária tailandesa bebe influências culturais e étnicas das cozinhas além-fronteiras. Como tal, muitos dos seus pratos mais afamados tiveram as mais diversas origens: que vão desde a singularidade da cozinha chinesa à intensidade da gastronomia indiana, do exotismo persa ao pragmatismo ocidental. E Portugal não foi deixado para trás. Em 1511, quando a primeira missão diplomática portuguesa chegou ao tribunal de Ayutthaya (actual Bangkok) criaram-se pratos como o tanga foi, adaptação Thai dos portugueses fios de ovos, e o sangkhaya, uma espécie de creme, onde o leite de côco substitui o leite de vaca. Mas, não foi o jeito da cozinha portuguesa que ajeitou as minhas preferências. Foram as adaptações tailandesas da culinária indiana, essas sim, pelo recurso às especiarias secas, que me livraram do embaraço da escolha.

Para abrir as hostes, três tostas de vegetais com sementes de sésamo, servidas em porcelana oriental – o sabor é estranhamente bom e deliciosamente delicado.

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Tostas de vegetais com sementes de sésamo (e molho agridoce)

Para dar cabo da gula, Massaman Kai, uma iguaria consistente que consiste em pedaços de frango cozinhados com Massaman – uma variante de caril -, leite de côco e batatas, grosseiramente cortadas. O arroz, que se quis fazer acompanhar, revela-se como elemento fundamental numa refeição Thai – quer-se prato principal a complementar todos os outros. Como “grão de ligação”, o arroz é o primeiro e o mais importante alimento na tradição culinária tailandesa – de tal ordem, que as palavras “arroz” (em tailandês, Khao) e “alimentos” são exactamente a mesma. Aliás, como em muitas outras culturas alimentares de arroz, dizer “comer arroz” (em tailandês, parentes khao) é exactamente o mesmo que dizer “comer alimentos”. Assim, como parte integral da dieta tailandesa, tornou-se comum a saudação: “Já comeste arroz hoje?” (Parente khao reu yang?).

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Massaman Kai

Perita em arrozes, ela foi comigo, uma vez mais – arrastei-a até ao mercado, melhor dizendo. O Massaman Kai teria sido o aconchego para um dia chuvoso, mas não a convenceu – achou-o demasiado doce e eu achei-o inacreditavelmente peculiar. Comemo-lo à nossa forma, na forma de o partilhar – um bom tailandês faria o mesmo. Enquanto isso, ela deitava a vista aos camarões que iam passando. Acimados a uma boa camada de noodles, eu abstraia-a da vontade que tinha em experimentá-los. E, como para quem não gosta, há de sobra, eu ia deixando cada vez menos sobras para ela comer. Mais que uma mistura de sabores, o Massaman Kai reflectia, a cada garfada, a complexidade em fazer-me deliciar. Adocicado, de travo picante e com uma leveza aromática contrastante, este prato assoalha uma Tailândia que eu quero como casa. Fiquei perdido. E, perdido uma vez, o juízo não volta: o Lek’s Thai Food é daqueles sítios em que parto a sorrir e volto a chorar… a chorar por mais!

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Lek’s Thai Food

Unit 1 Chelmsford Market, Market Square, CM1 1XA Chelmsford, Essex | 01245258030

Aberto de terça a sábado das 9h da manhã às 16h30 da tarde.

www.leksthaifood.com

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