Mérida, uma Roma à espanhola

Para um carro encostado, tudo são caminhos. E Mérida, entre falas loucas e orelhas moucas, ficou-me no ouvido pelo salero contado, numa “Roma” por contar.

Na altura, Karaman tinha deixado de ser abrigo para, inesperadamente, Portalegre voltar a ser a minha casa. Ela, a criar mais dias que meses, tirou uma semana para anular mais planos do que a vida.  Mas, é boa moça que se faz de má. Ajeitei-lhe a almofada e confundi-lhe a virtude com o vício, o de me ter. Lá fomos.

Sem prazo, traçámos Elvas – que de Espanha se quis perto – e Badajoz – que de Portugal se vai mantendo afastada. O contraste é inevitável: no arraste alentejano das palavras e na pujança “aspanholada” em viver cada dia como se fosse o último, típico de quem come torradas com tomate e azeite ao pequeno-almoço. E podia ter sido uma tomatada ter chegado ao destino. Felizmente, não o foi. O caminho faz-se a direito e nós fizemo-lo como se a direito se tratasse, à nossa maneira.

Parámos o carro junto da Praça de Toiros, numa das ruelas perdidas no tempo pelo tempo que Mérida tem. Lesto o pé, partimos à descoberta de uma cidade erguida por Augustus e conquistada por quem a quis conquistar.

A banhos com o Guadiana e o Albarregas, Mérida nasceu para júbilo dos veteranos de legiões, donas dum nome de ninguém, por todos já o terem esquecido. Ali, 25 anos antes de Cristo, assentavam arraiais, amadrinhados com todas as regalias que Roma tinha para oferecer. À espanhola, de sangue na guelra e arrojo no olhar, Mérida viu-se capital da província romana da Lusitânia. E assim o foi até às invasões bárbaras, no decorrer do século V, depois de Cristo. Deste então, concentrou em si todo o reino visigodo que se havia instalado para os seus lados. O sol ainda foi de muita dura mas, em 713, o Islamismo imperou numa cidade reconquistada, em 1230, pelos cristãos. Dessarte, Mérida é um lugar de culto e de encontros, de história e histórias, de passado e passados. E por lá passámos uns bons primeiros minutos: a seco – que a água tinha ficado no carro -, debaixo de um sol abrasador, à procura do que nunca chegávamos a encontrar. Porém, é a deriva que Mérida se quer conhecida.

Cidade como tantas outras, Mérida é atravessada, em grande parte, pelo casario amorfo dos anos 60. A história que conta, pouco mais não é que a vida de quem nele vive – interessante para uns, desmotivante para os próprios. Por essas ruas, a cada passo deposito esperança na incerteza do que é certo: sinais da presença romana num assentamento de honra, glória e compromisso. Tal não tardou a acontecer.

Teatro e Anfiteatro

Subimos à parte alta da cidade, em direcção ao que nos era direccionado. A dado momento chegámos onde queríamos ter chegado à muito. O complexo arqueológico do Teatro e Anfiteatro Romano havia sido a razão dos quilómetros trilhados – mal eu sabia o preço da minha teimosia. Ainda assim, quem dinheiro quis salvar, muitas voltas teve de dar. No fim de contas, lá entrámos com bilhetes de estudante sem o sermos.

Caminho estreito, nós à frente. O Anfiteatro quis-se primeiro.

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Anfiteatro de Mérida

Geometricamente em elíptica, com um eixo maior de 126 metros e um outro menor de 102, o Anfiteatro concentra uma arena que deu luta a feras e trabalho a gladiadores. Das dezasseis portas abertas para o exterior saíram vencedores e vencidos, vivos e mortos, mitos e verdades.

Palco de gritos eufóricos e silêncios prolongados, o Anfiteatro reunia a preferência do povo em detrimento da imponência do Teatro Romano, erguido a paredes meias. Com uma mensagem subliminarmente política, o Teatro figurava a autoridade e o poder, o império e a sua magnificência. A sua criação foi promovida pelo cônsul Marcus Vipsanius Agripa, ainda Mérida era chamada de Emerita Augusta.

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Teatro Romano de Mérida

A par do Anfiteatro, o Teatro acabou abandonado aquando da formalização no Império Romano da religião cristã, em meados do século IV, com a justificação de que as performances teatrais nele desempenhadas serem consideradas imorais. Assim, grande parte da sua estrutura acabou subterrada e, durante séculos, a única parte visível era o cavea summa, as camadas superiores, que foram baptizados pelos emeritenses como “Las Siete Sillas”, onde, segundo reza a lenda, muito dos reis mouros se sentavam para deliberar sobre o destino da cidade.

O início do século XX assume para uma Mérida um momento de descoberta dela própria. Ainda com recursos limitados, o arqueólogo José Ramón Melida dá início às escavações que, anos depois, me conseguem mostrar tudo aquilo que nunca pensei ver.

É numa das áreas da arquibancada semicircular que dou por mim inerte, esmagado com a sumptuosidade da frente cénica. Em números, 7,5 metros de largura, 63 de comprimento e uma altura total de 17,5. Em detalhes, a base fez-se de pedra, coberta de mármore avermelhado onde descansam dois corpos de colunas. Por si só, estas suportam um entablamento com arquitrave, friso e cornija ricamente decorado e a parte traseira da cena deixa-se fechar com uma grande parede marmoreada. Ali, fazem-se presentes esculturas de deuses como Ceres, Pluto e Proserpina, no meio de outras tantas a retratarem o imperialismo com togas e armaduras.

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Teatro Romano de Mérida, Pormenores

Após a cena, o paraíso numa área ajardinada rodeada de colunas e pórticos.

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Área de Recreação nas traseiras da frente cénica

Na parte inferior do jardim, no eixo com a porta central da cena, descortina-se uma pequena sala dedicada ao culto imperial. Nela, pode ser admirada a escultura do imperador Augustus vestido como Pontifex Maximus – não tão cativante como ela, é certo.

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Imperador Agustus

Templo de Diana

À boa fome, não há mau pão e se em Roma sê romano, em Espanha sê espanhol. Todavia, o dinheiro não esperava o tempo da fartura – como quem diz, da paella. Fomos à procura da tortilha, que sempre foi boa a remediar.

Nessa demanda, entre as ruas de San José e Los Maestros, por um lado, e a rua de Viñeros, por outro, encontrámos o Fórum Romano de Mérida. Nele, destaca-se o Templo de Diana, edifício dedicado ao culto imperial e à latria de quem, nos dias de hoje, perde cinco minutos a ganhar em pormenores.

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Fórum Romano de Mérida: Templo de Diana

Uns passos abaixo, a outros tantos da Praça de Espanha e a tantos outros do Arco de Trajano – onde acredita-se ter sido a principal entrada para o Fórum Provincial de Emerita Augusta -, amarrámos o burro e enchemos o bucho: bocadillos de categoria, regados de um tinto de verano de primeira.

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Praça de Espanha, Mérida

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Arco de Trajano

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Tinto de Verano

Ponte Romana de Mérida

Satisfeitos, seguimos caminho até ao Guadiana. Por lá, contemplámos as vistas sobre a ponte que, em tempos, foi uma das maiores do Império Romano. Hoje, a 12 metros do nível médio da água, possui um comprimento de 721 metros e repousa sobre 60 arcos. É, por isso, obra-prima de quem a engenhou e signo de resistência de quem a construiu.

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Ponte Romana de Mérida

Alcabaza Árabe

A primeira investida pela alma de Mérida havia chegado ao fim. Um reencontro não era calculável, mas calculou-se meses depois. E como é preferível olhar os restos a perdê-los, a Alcabaza Árabe, erigida a braços dados com a ponte romana, mereceu a estima de quem não a merece por a ter deixado para trás.

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Alcabaza Árabe, vista do exterior

Construída por Abderramán II, em 835 depois de Cristo, a Alcabaza firma-se como a fortaleza moura mais antiga da Península Ibérica. Com um recinto quadrado de 130 metros de comprimento, capaz de acomodar um grande número de tropas, a fortificação apresenta, no seu interior, uma cisterna de água filtrada. De acesso custoso, por uma escada dupla a partir do piso térreo de uma torre, a cisterna revela-se como um legado tão longe e tão perto. É, portanto, um segredo desvendado que muitos teimam em ignorar, por não saber.

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Alcabaza Árabe, vista do interior

Casa Del Mitreo e Columbarios

Os Columbarios poderiam ter sido deixados para o fim, por simbolizarem isso mesmo. No entanto, nem tudo na vida tem um sentido, muito menos quando se fala de morte. E é neste complexo que encontrámos um conjunto de edifícios funerários romanos vinculados ao mundo da morte e à forma como os próprios a interpretavam.

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Columbarios

A visita é densa e facilmente aliviada com uma ida à casa senhorial romana ali ao pé: a Casa Del Mitreo. Distribuída em torno de três pátios principais, destacam-se as suas pinturas arcaicas e os seus mosaicos de uma mestria inquestionável. Considerado um dos mais importantes de todo o Império Romano, o Mosaico Cosmológico é um bom exemplo disso mesmo: de quem ganhou tempo a pensar em deixar os outros pensativos.

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Pormenor do Mosaico Cosmológico, Casa Del Mitreo

Circo Romano

O Circo Romano de Mérida foi deixado para último, por ser o mais afastado. Andámos numa fona, voltados a sul, às voltas para o achar.

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Circo Romano de Mérida

Construído nos primórdios do século I depois de Cristo, durante a época de Tibério, o Circo Romano de Mérida levava o povo ao rubro com as corridas de bigas que iam sendo organizadas. Do miradouro que ali se fez erguer, recordámos tantos outros monumentos, que despachámos pela manhã num daqueles comboios turísticos – tão certo como a corcunda do bobo ser poleiro do esperto.

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Aqueduto Los Milagros

A Morería, a Cripta de Santa Eulália e o Aqueduto Los Milagros serão merecedores de desvelo numa próxima vez. Nessa altura, talvez desencoste o carro e vá a conduzir. Ela, de mapa na mão, cruzará certamente os dedos, torcendo para que tudo dê certo. E certeza teremos uma: das três que existem no Mundo, a Mérida espanhola é a que mais mundos condensou. E isso faz dela aquilo que ela é: património mundial.

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Mais informações em:

Turismo de Mérida: http://www.turismomerida.org/

Consorcio Ciudad Monumental de Mérida: http://www.consorciomerida.org/

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