Diário de Bordo // Estar no ir e voltar IV

27.jan.2016

Riad Edward, 21h47

Na cama com ela!

Janeiro soalheiro, paraíso verdadeiro. Quem me dera que assim fosse.

Uma boas horas atrás, com ela meio passo à minha frente, procurávamos o que não se queria achado: o taxista. Cinco minutos de fumo depois, fez-se aparecido. Do aeroporto ao centro de Médina, a “cidade-velha”, foram uns vinte minutos de inglês de estrada. Do lado de lá da janela, o luxo passa ao lixo, e o caminho fez-se em pó. O motor parou. Não havia forma de seguir em frente que não fosse a pé. E lá fomos, de malas a rasto e boca calada, que o medo é o tamanho que se quer.

No chão, com um tapete aos pés, homens e mulheres dão o dado, vendido e o vendido, por vender. Aqui não há preços, há preços que se fazem. Há fruta, legumes, madeira, tecidos, carnes e loiças, há quem compra o que não pode e vende o que não deve. Há bolos à fome de quem os compre e moscas que não os podem perder. Há mil negócios por esquina e outros tantos por fazer. Virámos à direita. Não há nada. Apenas a arcada da Villa Nómada, abrigo de um grupo de crianças que por ali se entretinha com qualquer coisa e coisa nenhuma. O Riad aparece no meio do vazio, de braços dados com tudo. É um refúgio onde o silêncio quer-se ouvido. Da porta do nosso quarto, que quiseram no piso térreo, a piscina abre-se a quem a quiser disciplinar. A “pegar no pé”, assentadas numa mesa de vidro, três molduras encerram três retratos a quem pensámos este palácio ter pertencido. É ao seu jeito que se ajeita este Riad: cada recanto é uma descoberta e cada descoberta é um ponto de partida para tantas suposições.

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Green Room, o “nosso” quarto

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A porta do quarto para o pátio principal do Riad Edward

Deixámos o Riad por volta das 13h30, com um chá de menta feito a quatros copos e três biscoitos marchados a dois. Percorremos ruas labirínticas, entre autocarros, carros, carrinhas, carroças, motas, bicicletas e um atolado de gente sem norte a nortear caminhos que teimavam em não aparecer.

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Uma das ruas perto do Riad

A manhã ia longa e a fome muita (para as bandas dela), e na primeira vez que nos abordaram foi difícil dizer que não. Com língua afiada no inglês que se sabia, lá nos convenceram a tomar lugar no terraço de um café que se dizia ser de um Riad (mas eu continuo a não acreditar). Era carismático, simples e tradicional. Sem pretensões e “turismos”. Por ali comemos bem e mão pagámos muito. No impasse do troco, enquanto uns rezavam e outros zurravam, conseguimos com que nos ajudassem a situar o lugar onde Marrakesh sempre se situou: a Praça Jemaa El Fna. Por fim, continuámos burros pelas pisadas dos mesmos. Mas, a sorte ajuda os ousados e trilhados dez minutos a La Koutoubia anuncia a Praça por perto.

Entre uma tentativa de champô que ficou por comprar e uns olhares suspeitos por desvendar, fizemos carreiro e acabamos encarreirados. De túnica acastanhada até aos pés, bem falante e de cigarro pronto dentre os dedos, um “guia” com um nome de ninguém – por não me lembrar – comprometeu-se a levar-nos pela infinitude dos Souks, os mercados de Marrakesh. Cem dirhams (aproximadamente, dez euros) seria o sinal que cerrava o acordo. Aceitámos. A simpatia não tardou muito em acabar. O negócio respirou estreitos paralelos e comissões por contar. A verdade é que muito terreno foi desbravado. Terrenos a que muitos não têm acesso, por muita que seja a vontade. Terrenos levados por ruas estreitas que se cruzam num número de vezes sem fim, quase todas elas iguais. Ali vale tudo. E valeu pela experiência, pelos cheiros, pelas cores e por todos os “puxões”. Valeu pelas compras feitas e pelo regateio perdido no tempo. Valeu pelas pessoas de boa fé e pelas que não a tiveram. Valeu pelos 200 dirhams dados, pela pulseira do pé para ela e os 160 dados, pelos chinelos em pé para mim – numa loja em que “os sapatos iam até ao céu”. Valeu pela mala a tiracolo e pelas porcelanas para a minha mãe. Valeu por valer, e o dinheiro já não volta.

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Souks, uma das bancadas de frutos secos

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Aqui os “sapatos vão até ao céu”!

Por fim, o bem falante queria gorjeta e ainda levou umas moedas. Deixou-nos ao acaso naquela praça que por acaso, ou não, havíamos procurado o dia todo. Por lá, tentámos fugir das cobras que nos queriam “cobrar” às costas e dos macacos que queriam com que fotografássemos de nota na mão. Tão longe e tanto perto, a vida de Jemaa El Fna acabou por nos ter afastado de volta para o Riad. Até lá gastámos os trocos em amendoins e pão, bom por não ser como o “nosso”.

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Praça Jemaa El Fna

Banho tomado, subimos ao terraço, com vista para o negro das noites amenas de Marrakesh. À mesa serviram-nos o jantar pedido. Entradas de feijão verde e principais de tangine (a primeira) com legumes e borrego, tudo regado a chá de menta. A sobremesa fez-se tarte de limão e não tardámos em admitir ter sido a melhor refeição que alguma vez havíamos provado: pela surpresa das combinações, pelo doce e o picante, pelo ácido e o crocante.

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Um dos terraço do Riad Edward

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Chá tradicional de menta

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Tangine com legumes e borrego

Marrakech está a revelar-se verdadeiramente apaixonante e as entrelinhas do nosso primeiro dia têm muitos segredos que ficarão entre nós… por terem sido tão bons!

Amanhã é outro dia.

xxx EU xxx

______________________

Riad Edward

10 Derb Merstane, Marrakesh, Médina, Marocco

Outros pontos de referência: Sidi Bel Abbes| Bab Taghzout | Kbour Chou | Zaouia

+212 5 24 38 97 97 | +212 6 50 50 78

E-mail: riadedwardmaroc@gmail.com

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