Marrakesh num instante

É cidade confusa, de lábia e labirintos, de fé e perdição, de quem foi e quer voltar. Contraditória, de entorno árido e torrão fértil, Marrakesh faz do seu querer aquilo que não se pode ter: dissonância e ambiguidade. Assim, como a maior parte das cidades marroquinas, Marrakesh é uma de duas metades: a antiga muralhada Médina, fundada por Sultan Youssef Ben Tachfine, na Idade Média; e a colonial “Ville Nouvelle”, construída pelos franceses no início do século XX. Cada uma com a sua identidade: a Médina, com os seus imemoriais palácios, mansões vetustas e labirínticos Souks, desvela o lado mais tradicional de ali se viver; por outro lado, a “Ville Nouvelle” abre-se em grandes avenidas, ladeadas de esplanadas, lojas, jardins e movimento.

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Zaouia Sidi Bel Abbes

Em que altura visitar?

Atendendo às condições meteorológicas, a Primavera (Março-Maio) e o Outono (Setembro-Novembro) são as melhores épocas para uma visita a Marrakesh – estará sol, mas não estará demasiado calor. No auge do Verão (Junho-Agosto), as temperaturas diurnas  podem atingir os 38ºC e, à noite, não descem a casa dos 20ºC. No Inverno (Dezembro-Fevereiro), a temperatura pode chegar a uns agradáveis 18ºC, durante o dia; contudo, ao escurecer, não é incomum chegar-se a atingir os 4ºC – ou talvez menos.

Tendo em conta as festividades, entre Junho e Julho, Marrakesh oferece o Festival National des Arts Populaires, com músicos e espectáculos de “fantasia” equestre, durante a noite; já nos finais de Novembro e inícios de Dezembro é tempo para o Festival de Cinema de Marrakesh.

Quanto ao alojamento, a Páscoa e o Natal resumem as épocas de maior procura e, consequentemente, preços mais elevados.

Sentada sob os picos dramáticos das montanhas do Grande Atlas, Marrakesh quis-se conhecida como “a Cidade Vermelha” – e o porquê não está longe da vista de quem quer ver. O ocre, naturalmente de pigmento avermelhado, domina paredes e edifícios e, simultaneamente, dá espaço a outras cores – existem poucas cidades tão vibrantes como esta.

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Com ruas estreitas a implorar uma descoberta da sua azáfama, entusiasmo e vitalidade, Marrakesh respira os aromas do Médio Oriente e de África: especiarias, incenso e madeira fresca – cortada e trabalhada nas várias oficinas de rua. Mas, ao mesmo tempo, exala uma elegância de inspiração francesa: nos detalhes dos Riads, no sabor dos pratos, na fineza das boutiques e na galhardia das roupas. Influências à parte, Marrakesh é, em primeiro lugar, uma cidade marroquina que se aquece numa combinação única de cultura Árabe e Berbere – que infunde na sua arquitectura, no artesanato, na culinária e, sobretudo, no seu povo.

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Riad Edward

Os Riads

Hoje em dia existem centenas de Riads em Marrakesh, embora cada um deles varia em termos de qualidade – daí valer a pena compará-los ainda antes de uma potencial reserva. Literalmente, Riad significa “pátio com jardim”, mas o termo, com o desenrolar do tempo, tornou-se sinónimo de uma casa de hóspedes de luxo a derivar de uma mansão antiga remodelada – quer tenha pátio com jardim ou não.

A tendência iniciou-se na década de 90 quando os europeus que tinham comprado casas na Médina – para seu próprio usufruto – descobriram que poderiam fazer uma “boa nota” caso os seus convidados começassem a pagar a estadia. Desde então, o negócio tomou proporções consideráveis e espalhou-se por outras cidades marroquinas, como Fez e Essaouira. Muitos dos Riads, propriedades de europeus, foram remodelados à imagem de uma revista de design de interiores, com piscinas a ocupar os pátios e jacuzzis nos terraços superiores. Todavia, os melhores Riads são aqueles que estão carimbados com a personalidade das pessoas que nele habitam, quer sejam um casal ou uma família, e estes sim são uma boa escolha para viver ao bom estilo marroquino: descontraído, por sinal.

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O que comer?

O prato mais típico de Marrocos é a tajine, um termo que não diz respeito ao alimento em si – vegetais amontoados em torno de um aglomerado de carne – mas sim ao “navio” em que o próprio alimento é cozinhado – um prato de cerâmica pesado, coroado  com uma tampa cónica, também ela em cerâmica (nele os alimentos são cozinhados lentamente, em lume brando ou sobre carvão vegetal). As duas tajines mais clássicas são a de frango com azeitonas e limão em conserva e a de carne de cordeiro com ameixas secas e amêndoas.

Em Marrakesh, o prato mais tradicional passa pela tanjia (também escrita, tangia ou tanzhiya), um jarro em que a carne de  cordeiro é cozinhada ainda mais lentamente (quando comprada com a tajine). A forma mais típica de a confeccionar é com as brasas de um forno balneário, temperando a carne com alho, cominhos, noz-moscada e outras especiarias.

Para os visitantes, a Jemaa El Fna é, sem sombra de dúvida, o principal foco – ou não fosse ela um lugar ímpar no mundo. Mais que um espaço aberto, esta praça é o palco de um ritual de longa data: círculos de mundanos curiosos reúnem-se para assistir aos actos de acrobatas, comediantes e feirantes.

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Praça Jemaa El Fna

A Praça Jemaa El Fna e a Koutoubia

Ninguém sabe ao certo quando e como a Jemaa El Fna surgiu – ou até mesmo o significado do seu nome. A tradução usual é “congregação dos mortos“, uma alusão directa às execuções públicas, tanto de rebeldes como de criminosos, que ali se praticavam até ao século XIX.

Actualmente, durante o dia, esta praça quadrangular é apenas um grande espaço aberto que se enche de um punhado de encantadores de serpentes e curandeiros. Ao escurecer, as pessoas saem para um passeio (especialmente pela Rue Bab Agnou) e a praça, gradualmente, preenche-se com contadores de histórias, acrobatas e músicos. Como atracções secundárias: jogos tradicionais, adivinhos e mulheres com sacos repletos de pasta de henna, prontas a pintar mãos, pés ou braços com as mais variadas “tatuagens” – só a pasta de henna avermelhada é natural.

Caso a sede se faça sentir, inúmeras barracas oferecem sumo de laranja e toranja, espremido na hora, enquanto os carrinhos de mão vizinhos vendem tâmaras, figos secos, amêndoas e nozes.

Quando o crepúsculo cai, a Jemaa torna-se uma enorme sala de jantar ao ar livre, com tendas iluminadas por lampiões a gás, e o ar vê-se com cheiros  e plumas de fumo em espiral, num convite irrecusável a sentar-se a desfrutar a mística da noite marroquina.

A oeste da praça, o minarete da Mesquita da Koutoubia – com cerca de 70 metros de altura e, portanto, visível por milhas – é o mais antigo das três grandes torres construídas por governantes almóadas do século XII.

A norte da actual mesquita (onde apenas os muçulmanos podem entrar), pode ver-se os restos da mesquita original. As escavações acabaram por confirmar que a mesquita teve de ser reconstruída para corrigir o seu alinhamento com Meca.

Para sul e oeste da Koutoubia podem encontrar-se vários jardins, atraentemente projectados com piscinas, fontes, roseiras, laranjeiras e palmeiras – visitáveis das 8 da manhã às 6 da tarde, junto à Avenida Houman el Fetouaki.

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Koutoubia

Além da Jemaa, a Médina é um labirinto de ruas e vielas; perder-se entre elas é uma dos grandes prazeres que uma visita a Marrakesh oferece. Por lá encontra-se uma profusão de mesquitas, escolas islâmicas e Zaouias (mausoléus que honram a memória de vários homens e mulheres), esparsas no meio de uma vida de rua exótica, repleta de amoladores de facas itinerantes e vendedores de fruta, mulas que carregam mercadorias e camponeses “abancados” na cidade.

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Souks

Os Souks – o que comprar?

A área dos Souks compreende a metade norte da Médina e está repleta de pequenas lojas que vendem artesanato e vestuário, bem como oficinas onde muitos dos itens para venda são feitos.

Um passeio por este espaço de mercado é, definitivamente, um dos pontos altos de qualquer viagem a Marrakesh. Porém, ainda antes da aventura, vale a pena dar uma espreitadela em lojas de preço fixo (a Ensemble Artisanal, por exemplo), com o intuito de ter um ideia da relação custo-qualidade.

Partes dos Souks, e até mesmo outros locais da Médina, especializam-se em determinados materiais: os tapetes podem-se encontrar no Souk des Tapis, por exemplo; os babouches (chinelos marroquinos) no Souk Samat; e as lanternas e candeeiros no Place des Ferblantiers. Outros produtos incluem o couro marroquino, que é curado em curtumes locais, e o vestuário tradicional, alguns dos quais sofrem adaptações consoante os gostos ocidentais.

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Azulejos (pormenor)

Assim é Marrakesh: um instante que demora.

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Num instante…

… a visitar:

  1. Souks O vibrar do comércio local.
  2. Zaouia Sidi Bel Abbes O “santuário” de Marrakesh, em honra do seu patrono.
  3. The Tanneries A arte de curtir o couro.
  4. Jemaa El Fna O coração e a alma da cidade, e uma experiência absolutamente inigualável ao cair da noite.
  5. El Badi Palace A ruína mais fascinante de Marrocos, os restos de um palácio enorme, desmedido, com pavilhões e jardins rigorosamente ordenados.
  6. Majorelle Garden Um dos mais belos jardins do mundo, criado por um artista francês, no início do século XX.
  7. Koutoubia Definida como a obra-prima da arquitectura Almohad, enquadrada de forma perfeita – é o emblema da cidade.
  8. Ben Youssef Medersa Uma escola medieval islâmica, exemplo de Marrakesh como a cidade dos azulejos, do estuque e da madeira de cedro esculpida.
  9. Museu de Marrakesh Uma imponente mansão política do século XIX que, nos dias de hoje, serve de abrigo a um vasto acervo de arte marroquina.

… a dormir:

  1. Riad Edward Uma experiência na velha Médina, junto à Zaouia Sidi Bel Abbes. Morada 10 Derb Merstane, Marrakesh, Médina, Marocco.

… a comer e a beber:

  1. Café Snack Riad Lâarous Tradicional, despretensioso, neste restaurante saboreia-se Marrakesh a preços extremamente convidativos. Tem o melhor couscous que alguma vez provei. Morada Place Riad Laarous, n.º 175 Marrakesh, Marocco.
  2. Cafe Chez ZaZa Comida absolutamente deliciosa, com uma vista que não lhe fica atrás. Junto ao reboliço dos souks, a olhar para a Koutoubia, vale a pena pela salada de avocado. Morada 21 Bab Ftouh, Marrakesh 40000, Morocco.
  3. Café des Épices O melhor chá de menta da cidade. Morada 73 Place Rahba Kedima. Aberto das 9:30 da manhã às 9 da noite.

… a fazer contas:

  1. A moeda corrente de Marrocos é o Dirham (dh). 11,25dh correspondem, aproximadamente, a 1 euro.

… a voar:

  1. Aeroporto Internacional de Menara A 4 quilómetros a sudoeste da cidade.

 

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4 thoughts on “Marrakesh num instante

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