Diário de Bordo // Altos e Baixos III

Com pressa a pressa acaba. Estávamos perdidos.

Polifacetada, num ecletismo tão igual na sua diferença, Rotterdam empoleira-se nas margens do rio Nieuwe Maas… e eu alço-me à orientação dela, norteada pelo desnorte. Enfrentámos casas portuárias, arranha-céus, pináculos e avenidas sem fim. Traçámos pontes similares sobre canais aproximados. Trilhámos rastos desconhecidos e túlipas já sem cor. Andávamos numa azáfama que Rotterdam não conhece. Ela já não falava e eu a dizer-lhe “é por ali” sem saber por onde ia. Conformei-me à sorte e o azar desapareceu poucos minutos depois.

Havíamos saído em Rotterdam Central pelo lado errado de Stationplein. Queríamos subir a Rotterdam Stadhuis, mas acabámos enterrados nas escotilhas do pós-guerra. Descobrimos Kruiskade quando demos de cara com o “Taverna”, um restaurante que soa a Portugal e nada mais. Não fez do bacalhau prato do dia e deu-se ao luxo de bater com as portas. Queríamos tê-lo experimentado ainda antes de ter falido, porém para males maiores grandes remédios. Foi nesse desfado, por Lisboa não se fazer ali cantar, que a esperança de encontrar o hotel ali ao lado é soltada. E foi mesmo.

 

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Rotterdam Stadhuis

O Grand Hotel Central teve os seus dias de glória. Nos dias de hoje é barcaça doméstica a rivalizar o mesmo porto com navios de renome. É uma causa esquecida com um pequeno-almoço que fica na memória. A sala que o serve é marcada por um tempo que já lá vai. O mofo que senti vinha do salão ao lado, com sofás encarnados, encardidos por um passado de fumo, bagaceira e bilhar. E nem o odor da história que fez a história do Central afastam os livres de espírito e pobres de carteira. As mesas estavam apinhadas de jovens e famílias. Ali aproveitavam para deitar à mala aquilo que mais tarde iria matar a fome. Um ritual indispensável numa metrópole sem costumes gastronómicos e preços de outro mundo. E nós não fomos de cantigas, aquele vício mesquinho matinal apoderou-se da mala dela todas as manhãs. Pão escuro afiambrado; fruta adocicada; compotas mil; ovos “cem” maneiras; e uma matrona de mini-saia e meia rendada à recepção como prova de fogo. É de bom disfarce que a víamos todos os dias, de chiclete dentre os dentes, a dizer um “good morning” que acorda qualquer um. Porta fora, íamos de sorriso matreiro nos lábios, pelo pequeno-almoço tomado, pela mala cheia de ração e por sermos “marinha” a desbravar maré desconhecida.

Rotterdam fez-se  cansando e andando. Passo a passo, mão segura, mão treme, avançávamos pelos espaços comerciais de Stadhuisplein, tão particulares e tão plurais, tão tentadores e tão inviáveis. Ao fundo à esquerda a Poffertjes Salon, um dos poucos lugares onde os Baixos têm gosto. Desde o “Dudok” appelgebek, aligeirando pelos tradicionais Wafels até aos Poffertjes, que dão nome à casa, conheci a felicidade como nunca a tinha conhecido: doce, amanteigada e regada a Chocomel.

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“Dudok” appelgebek na Poffertjes Salon

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Poffertjes acompanhados de chocolate e manteiga na Poffertjes Salom

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Chocomel na Poffertjes Salon

Barriga cheia, pé na estrada. O Markthal aparece a segundos. Irreverente, a desafiar as leis da física, este mercado de comida concentra vários mundos culinários num espaço só. As suas paredes, prolongadas num tecto arredondado, vestem-se de azulejos coloridos com os mais diversos motivos alimentares. O ambiente é incomparável: respiram-se tapas espanholas; petisca-se peixe frito por mãos turcas; saliva-se por batatas holandesas e pizzas italianas. Nós lá abancámos feitos tasqueiros, fartos de comida sem caldo e papo dessecado.

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Markthal

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O tecto do Markthal, que o fez afamado como “Capela Sistina de Rotterdam

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Vista a partir do interior do Markthal para o Het Potlood (“O Lápis”), edifício residencial desenhado pela genialidade de Piet Blom

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O peixe frito por mãos turcas, que é como quem diz: o Menu Royal Fish da Unidade 61 do Markthal

Passadas as exóticas casas-cubo (Kijk Kubus), projectadas por Piet Blom, que suscitam uma perplexidade expectável pela sua estrutura e na forma de a viver, seguimos até bem perto da água, ou não estivéssemos diante de uma das cidades portuárias mais significativas do mundo. As gigantescas docas são um testemunho do património marítimo nacional. Acima delas, avistámos o Euro Mast, com os seus 185 metros de altura a dar para um infinito de pontes futuristas, antigos portos interiores, navios históricos e iates de luxo.

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Kijk Kubus (“Casas-Cubo”): levadas a cabo pela genialidade de Piet Blom, ao girar a planta “normal” de uma casa em 45º, cada unidade arquitectónica representa uma árvore e todo o complexo um bosque, o conhecido Blaakse Bos

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No caminho até bem perto da água, a Witte Huis (“Casa Branca”): localizada no Oudehaven, a Witte Huis viu-se erguida em 1898 e consagrou-se, à época, o edifício de escritórios mais alto do mundo, com 43 metros de altura; actualmente é vista como um sobrevivente aos bombeamentos que devastaram Rotterdam em 1940

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Euro Mast

Estávamos em Erasmusbrug e lá embarcámos numa encruzilhada pelo Porto de Rotterdam, lado a lado com os maiores navios porta-contentores do mundo. O frio gelava quem nele pensasse. Eu, pasmado, dava conta, légua após légua, o quão a pequenez humana pode ser grandeza.

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Erasmusbrug (Ponte Erasmus): uma ponte levadiça com 800 metros de extensão

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Uma embarcação em Oudehaven, o “porto velho” de Rotterdam

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O Porto de Rotterdam, um dos maiores do mundo

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Vimos a noite cair três vezes sobre Rotterdam, todas elas iluminadas a néon. Os jantares quiseram-se quase sempre no mesmo restaurante, o Orient Parel. Um restaurante chinês, feito por chineses para chineses. Nós não fomos de olhos em bico, sentávamos numa das mesa e lá conseguíamos pedir umas coisas do menu ao calhas. E calharam-me tão bem que até hoje penso nelas. Isso e as madrugadas holandesas, guardadas por mim e por ela, como dum porto de abrigo se tratasse.

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Num instante…

… a dormir em Rotterdam:

  1. Grand Hotel Central  Kruiskade 12 | 3012 EH Rotterdam, The Netherlands Contacto telefónico +31 (0)10 414 07 44 1876 E-mail info@grandhotelcentral.nl Site www.grandhotelcentral.nl

… a comer em Rotterdam:

  1. Poffertjes Salon Hoogstraat 147, 3011 PM Rotterdam, The Netherlands | Aberto das 10:00 às 18:00h todos os dias da semana
  2. Royal Fish Ds. Jan Scharpstraat 298 | Unit 61, Markthal, 3011 GZ Rotterdam, The Netherlands E-mail info@royal-fish.nl Site www.royal-fish.nl
  3. Orient Parel Kruiskade 72-76 | 3012 EH Rotterdam, The Netherlands Contacto telefónico +31 (0)10 21 40 102 | Aberto das 12:00 à 01:ooh todos os dias da semana

… a fazer contas:

  1. Royal Fish O menu de almoço Royal Fish com 18 peças ronda os 15 euros por pessoa.
  2. Oriental Parel Um jantar no Oriental Parel rouba-nos, em média, 15 euros da carteira (por pessoa).
  3. Spido Uma tour pelo Porto de Rotterdam nos barcos da Spido custa 12,5 euros por pessoa. Escritório da Spido (e também, ponto de venda dos bilhetes e local de partida do barco): Willemsplein 85 | 3016 DR, Rotterdam, The Netherlands Contacto telefónico +31 (0)10 275 99 88 E-mail spido@spido.nl Site www.spido.nl
  4. Kijk Kubus, Casa-Museu 2,5 euros por pessoa é o valor da entrada, estando aberto todos os dias da semana das 11:00 às 17:00h.
  5. Euro Mast Esta torre oferece a melhor vista sobre a cidade. O preço para dela desfrutar é de 9,50 euros. Pernoitar numa das duas suites que por aqui fizeram custa, em média, 385 euros/noite.
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6 thoughts on “Diário de Bordo // Altos e Baixos III

  1. Fantástico texto, mas apenas um pequeno aparte. O Euromast não é uma torre de comunicação (essa fica no lado sul da cidade, bem no meio do porto). O Euromast era a torre de ventilação do túnel, que foi remodelada e aumentada para albergar o cesto de gávea e o elevador giratório panorâmico.

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    1. Muito obrigado pela correcção! A memória já fraqueja quando se escreve sobre um lugar um ano depois de ter lá estado. Os “Altos e Baixos” vão continuar a ser narrados e a próxima paragem é Kinderdijk! Espero que tenha dado um espreitadela ao texto de Eindhoven!

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